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Travessia do Altiplano Boliviano, a mais incrível aventura off-road da América do Sul

Avatar de Fernando Barros
Salar de Coipasa
90 / 100

Já estive 4 vezes na Bolívia e 3 delas foram expedições de carro 4×4 em rotas que passavam pelo Salar de Uyuni e a região do Altiplano. Rodei também por quase toda a América do Sul, além de grande parte do Brasil. Após esses milhares de kms considero um trecho específico na Bolívia, uma rota pouquíssima usada, como sendo o “cálice sagrado” das expedições de offroad e overlanders. A mais bela aventura offroad da América do Sul. E que eu estou nomeando aqui pela primeira vez de: Travessia do Altiplano Boliviano.

mapa Travessia do Altiplano Boliviano
Mapa da Rota toda. De La Paz até San Pedro do Atacama

A Travessia do Altiplano boliviano cruza todo sudoeste da Bolívia de ponta a ponta. Iniciando em La Paz e terminando em San Pedro do Atacama, já no Chile. Passando pelo: Parque Nacional de Sajama, o desconhecido Salar de Coipasa (o segundo maior Salar da Bolívia), pelo famoso Salar do Uyuni (o maior Salar do mundo) e pela Reserva Nacional de Fauna Andina Edurado Avaroa.

O que é o Altiplano?

O Altiplano Andino é a parte mais larga dos Andes e o maior planalto do mundo depois do Tibet. Ele começa no norte do Lago Titicaca no Perú e termina próximo da divisa entre Bolívia, Chile e Argentina. Esse imenso platô com média de altitude acima dos 3.600 metros e repleto de vulcões, se encontra praticamente todo em território boliviano.

Porque que eu considero a Travessia do Altiplano Boliviano tão desafiadora?

  • A Travessia do Altiplano Boliviano tem um total de 960 quilômetros.
  • 90% em caminhos não asfaltados. Tirando o trecho entre Lapaz e Sajama e da fronteira do Chile até San Pedro, o resto é só: terra e sal.
  • A navegação é difícil. Mesmo seguindo alguma marcação de GPS, você terá que fazer seu próprio caminho em muitos trechos e decidir por onde ir, pois as condições do terreno mudam sempre. A neve, os rios de degelo e as chuvas de verão fazem grandes estragos nas estradas.
  • Entrar e sair dos Salares é sempre um grande momento de tensão, com alto risco de atolar.
  • Não existem postos de gasolina e a estrutura praticamente zero nas vilas do caminho.
  • Não existem hospitais próximos
  • É comum você ficar muitas horas sem cruzar com nenhum outro carro.
  • O google mapas não cobre boa parte das pequenas estradas dessa região.
  • Você precisa ir auto-suficiente e planejar muito bem tudo o que levar.

Porque a Travessia do Altiplano Boliviano vale tanto a pena assim?!

  • É a região mais inóspita da América do Sul.
  • Ela está toda acima dos 3.600 metros de altitude.
  • Você vai cruzar os dois maiores salares da América do Sul, passará por vários lagos maravilhosos e inúmeros vulcões.
  • Terá a sensação em alguns trechos que está dirigindo no planeta Marte!
  • Provavelmente você não conhece ninguém que já tenha feito essa rota dessa forma.

O roteiro

Fizemos a Travessia do Altiplano Boliviano no inicio de setembro de 2018. Era meia estação. Pegamos o começo do descongelamento da neve e a água já corria por alguns rios, mas os Salares ainda estavam secos. Recomendo ir entre maio e outubro.

Dividimos a Travessia do Altiplano Boliviano em 7 trechos:

1° trecho da travessia: La Paz para Parque Nacional Sajama

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  • Data 14/09/2018
  • Distancia: 287 km
  • Duração: em movimento 4h00
  • Altitude: máxima 4.365m e Mínima 3.800

Atrativos de destaque desse trecho da Travessia do Altiplano Boliviano:

  • Montanhismo: Nevado Sajama, Vulcões Acotango, Parinacota e Pomerape
  • Termas de Sajama
  • Geiseres
  • Vila Sajama

Esse primeiro trecho da Travessia do Altiplano Boliviano é praticamente apenas para deslocamento. A estrada é asfaltada e boa. Recomendo encher o tanque e os galões de combustível antes de sair de La Paz para conseguir pagar com cartão e poupar um pouco de moeda boliviana, pois daqui para frente tudo é só com dinheiro. Compre também tudo que você precisar em La Paz antes de sair.

Dirigimos à noite e foi bem tranquilo, muito bem sinalizada. Passamos por um posto de controle que nos parou e perguntou para aonde íamos, e foi só isso. A brincadeira começa mesmo no Parque nacional Sajama. Que é imperdível e maravilhoso.

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Lá é possível visitar alguns géiseres, águas termais, fazer trekking e montanhismo. A Vila de Sajama fica à 4.250 metros de altitude e é rodeada pelo Nevado Sajama, a montanha mais alta da Bolívia com 6.542 metros e os vulcões Parinacota e Pomerape, com 6.348 e 6.282 metros de altitude respectivamente. Um pouco mais ao sul se destaca também na paisagem o Vulcão Acotango com 6.052 metros. Ficamos 1 semana nessa vila pois eu escalei os vulcões Acotango e o Parinacota.

Leia meu relato detalhado sobre a Escalada dos Vulcões Parinacota e Acotango

Após cruzar a portaria do parque (que estava sem ninguém para fiscalizar pois eram 21:00, mas a entrada custa 100 b por pessoa) rodamos mais uns 5km e chegamos na Vila de Sajama, e logo na entrada estava o Hostal Sajama, que foi o local que escolhemos ficar. Os quartos são como cabanas externas bem pequenas, construídas de tijolos de adobe.  É bem simples, mas é o melhor hostal de Sajama.

Tomamos um banho catando as gotas que caia do chuveiro elétrico, fizemos um miojo com o nosso fogareiro dentro quarto mesmo e fomos dormir com a sensação que tinha uma placa de concreto espremendo a gente, pelo peso dos incontáveis cobertores.

Acordamos cedo e antes de tomar o café da manha, demos uma volta para tirar fotos e conhecer o pequeno vilarejo. Nesse mesmo dia saímos com o nosso carro, visitamos os géiseres e fomos nas termas. Que por sinal, na tentativa de achar o caminho correto atolamos feio antes de cruzar um rio. Nessa região tem uma terra preta de origem vulcânica que parece um cimento mole.

Tive que usar a pá, a tábua de desatolar e a ajuda dos amigos para conseguir sair desse lodo negro. Mas no final deu tudo certo e aproveitamos sozinhos uma piscina de água termal com uma linda vista para o Nevado Sajama.

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A próxima semana toda foi dedicada para a escalada dos Vulcões e assistir um campeonato de futebol local, que tinha até jogador brasileiro contratado para animar o jogo! kkkk Ele nos disse que em alguns casos era pago com pepitas de ouro! A Má aproveitou para descansar um pouco e curtir a gravidez em um ritmo mais calmo por alguns dias.

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2° trecho da travessia: Parque Nacional Sajama para Sabaya

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Link do minha marcação no Wikiloc para seguir: Sajama to Sabaya

  • Data 14/09/2018
  • Distancia: 177 km
  • Duração: em movimento 3h50, com paradas 4h50
  • Altitude: máxima 4.365m e Mínima 3.781m

Atrativos de destaque desse trecho da Travessia do Altiplano Boliviano:

  • Chulpas mortuárias
  • Travessia do Rio Lauca
  • Laguna Macaya
  • Laguna Sacabaya

Poucos quilômetros depois, saindo de Sajama – pela estrada RN4 que leva até o Chile – a primeira parada obrigatória é na pequena cidade de Tambo Quemado. Obrigatória pois será o único posto de combustível até chegar em San Pedro do Atacama. Aproveite também que são os últimos kms de asfalto!

Saindo de Tambo Quemado, volte alguns quilômetros, pegue ao Sul a RN27 e siga até a vila Chachacomani. Lá você irá cruzar a vila e sair da RN27 continuando ao Sul. Nessa vila logo na entrada tem uns blocos de concreto fechando a rua, não sei o porquê disso, mas é possível passar pela lateral entre eles. Fui com uma L200 e passou bem justo, um Motor-home ou trailer largo não passa, talvez tenha um desvio, mas eu não vi.

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Nevado Sajama ficando para trás

A estrada de terra vai ficando pior, mas ainda bem marcada e fácil de navegar. Todo esse trecho inicial é comum ter uns caminhos que acompanham a estrada principal, que as vezes é melhor pegar pois tem mais areia e trepida menos.

Cruzamos uma porteira e continuamos até Vila Pampa Mogachi. Apesar de toda aridez da região essa vila fica em uma área mais alagada com vários veios de pequenos rios que acabam cruzando a estrada. Passamos com atenção em dois deles. O segundo foi literalmente seguindo no sentido do rio, pois a água que vem do degelo das montanhas entra na estrada e corre usando ela como “calha”, até achar uma saída mais a frente. Formou como uma “raia” de uns 40cm de profundidade por 2.5m de largura e 100 metros de comprimento. Antes de atravessar eu desci do carro, olhei bem e o optamos arriscar, já que o fundo era de rochas e parecia firme. Como estávamos sozinhos, sem guinchos e com a Marcela grávida, sempre era uma adrenalina a mais atravessar lugares assim.

A próxima vila foi Macaya, era uma cidade militar, com posto de controle. Pediram nossos documentos, perguntaram o que estávamos fazendo lá e nos deixaram passar. Essa região é muito próxima da fronteira e tem um histórico de conflitos de soberania – como a Guerra do Pacífico em que a saída da Bolívia para o Mar foi entregue para o Chile – o que faz ser uma zona bem militarizada. Logo depois da vila tem a Laguna Macaya, cheia de flamingos e bem linda.

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Laguna Macaya

Seguimos mais alguns quilômetros e chegamos em uma bifurcação, que pelo mapa dava para ver que se juntavam mais a frente. As duas cruzam o Rio Lauca (sem pontes claro) e escolhemos a da esquerda que aparentava ser mais curta. O caminho foi ficando bem estreito e cada vez com mais areia. Não aparentava ser muito usado. Estava quase virando uma duna e com pouca possibilidade de espaço para dar a volta. Como eu não conseguia saber o que vinha pela frente resolvi voltar de ré até achar uma brecha entre os arbustos e manobrar.

Voltamos para a bifurcação e seguimos para a direita. Logo chegamos no Rio Lauca. Era um rio largo, um pouco caudaloso, com bastante areia nas margens. Existiam algumas marcas de pneus na entrada, mas não conseguia ver as marcas do local ideal para sair. Olhamos um para o outro com aquele certo suspense no ar… eu tirei a bota e fui entrar no rio para tentar entender com a real situação e planejar um rota de passagem. A água estava trincando de gelada, tinha um local com muitas pedras e não parecia a mesma areia preta vulcânica com charco que fez a gente atolar em Sajama.

Voltei para o carro e disse para a Marcela que achava que seria possível passar. Ou a gente tentava ou voltava tudo para Sajama e desistia dessa rota alternativa para pegar sentido Uyuni pelas estradas principais. Era todo o contexto da situação que me deixa apreensivo, mas claro que ela falou: Vamos tentar! Não é para isso que tem snorkel e 4×4? – Alias ela já estava falando isso antes de eu descer do carro!!

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Rio Lauca

Olhei para aquele barrigão, liguei a marcha reduzida e desci o pequeno barranco de areia embicando o carro no rio. Fui seguindo a linha das pedras, ganhando tração e uns 30 metros depois saímos por um trecho da margem sem dificuldade!

Seguindo pela estrada, fizemos um pequeno desvio a direita para visitar um dos sítios arqueológicos que existem nessa região: as Chullpas de Wila-Kkollu. São tumbas mortuárias feitas de adobe, pré-colombianas e únicas no mundo. Datadas de 1200-1300 DC. Existem mais ou menos 43 espalhadas por lá e algumas foram restauradas entre os anos de 2004 e 2009. É bem interessante.

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Chullpas de Wila-kkollu

Depois de visitar essas Chullpas, continuamos seguindo em direção a Vila de Sabaya. Passamos pela Laguna Sacabaya, uma imensa lagoa verde fosforescente, um pouco afastada da estrada, mas que mesmo assim impressionava bastante o visual. Dai para frente a estrada fica melhor marcada e não é difícil de navegar, mas tem que ficar atento ao GPS pois aumenta o número de desvios e estradas secundárias. Cruzamos alguns rios secos, umas 5 vilas praticamente desertas e paramos para fotografar outras Chullpas na beira da estrada, que inclusive nos surpreenderam pois possuíam ossadas humanas ainda dentro. Logo após, começamos a contornar o Vulcão Pumire, e chegamos na cidade de Sabaya, na beira da RN12 que leva até o Chile.

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Laguna Sacabaya pelo satélite e parte da nossa rota

Antes de seguir para Coipasa, a missão era conseguir comprar diesel para garantir e me informar sobre as condições para cruzar o Salar de Coipasa. Passando pelas ruas desertas dessa pequena e empoeirada vila, vi uma placa que indicava que uma mercearia vendia combustível. Por sorte tinha ainda 20L de diesel. Compramos esse galão, ovos, água, umas bolachas e perguntei para a cholita se era possível cruzar o salar. Ela me indicou o caminho e disse que dava para ir sim, pois passavam caminhões e ônibus por lá. Tínhamos apenas mais umas 2 horas de luz do dia então precisávamos sair logo. Nos despedimos e partimos.

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3° trecho da Travessia: Sabaya para Coipasa

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Link do minha marcação no Wikiloc para seguir: Sabaya to Coipasa

  • Data 14/09/2018
  • Distancia: 39 km
  • Duração: em movimento 52 minutos, com paradas 1h30
  • Altitude: máxima 3.720m e Mínima 3.666m

Atrativos de destaque desse trecho da Travessia do Altiplano Boliviano:

  • Travessia do primeiro trecho do Salar de Coipasa até o Vulcão Saxani
  • Acampamento na beira do Salar
  • Por do sol no Salar

Entramos na Rodovia e poucos metros depois pegamos a saída com destino a Vila de Coipasa, que fica em uma ilha, que na verdade é um vulcão, no meio do Salar. Logo uns 50 metros a frente tinha um bloqueio militar e aproveitei para reconfirmar se seria possível mesmo seguir naquela direção. Os soldados ficaram curiosos com a nossa presença, nos perguntaram sobre a expedição e disseram que o carro passaria sim, mas que era pelo menos 1 hora até Coipasa e que nós precisávamos seguir direto pois a noite era impossível se guiar no trecho pelo sal até a ilha.

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Demos uma acelerada, contornando o Vulcão Saxani a nossa direita e o começo do salar a esquerda e 30 minutos depois estávamos na pequena Vila Vitalina, na borda do Salar, mais próxima da ilha de Coipasa. Não dava para entender direito qual era o local que deveríamos entrar no Salar. Tinham muitas marcas de pneu, espalhadas meio de forma aleatórias e uma aparência meio “instável” do solo. Fui entrando no salar com cautela e toda hora descia do carro para conferir o solo, até que o piso foi clareando, ficando branco e aparecendo algumas poças de cor verde claro. Eram bem bonitas, mas passávamos na tensão total para não atolar.

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O sol já estava bem baixo, projetando uma luz maravilhosa no salar e aproveitamos para tirar algumas fotos da Má grávida naquele cenário. Alguns poucos quilômetros depois consegui avistar o local seguro para sair do salar, que normalmente é um pequeno aterro elevado do nível do solo e que avança até a parte firme do salar. Mas mesmo assim, requer bastante atenção, pois na entrada dele sempre acaba acumulando muita água devido aos buracos criados pelos pneus dos carros. Passamos rapidamente por uma poça que cobriu nosso carro com água salgada e subimos no aterro.

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Rodamos mais uns 15 minutos e chegamos na vila de Coipasa, mas como o plano era acampar seguimos um pouco mais para procurar um lugar ideal. E exatamente no local aonde a estrada entra no salar novamente achamos um lugar protegido do vento que seria perfeito para passar a noite. Encostei o carro, montei a barraca de teto e preparamos as tralhas para fazer um jantar admirando o espetáculo que era o pôr do sol naquele lugar!

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4° trecho da Travessia: Coipasa para Isla Incahuasi

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Link do minha marcação no Wikiloc para seguir: Coipasa to Isla Incahuasi

  • Data 15/09/2018
  • Distancia: 181km
  • Duração: em movimento 4h50, com paradas 7h50
  • Altitude: máxima 3.797m e Mínima 3.620m

Atrativos de destaque desse trecho da Travessia do Altiplano Boliviano:

  • Travessia do maior trecho do Salar de Coipasa
  • Passagem por parte da Rota do Rally Dakar de 2015
  • Dirigir pelo trecho norte do Salar do Uyuni
  • Isla Incahuasi (Camping e pôr do Sol)

Acordamos cedo, ansiosos sobre como seria esse próximo longo trecho no desconhecido Salar de Coipasa. Depois do ritual de preparar o café e organizar tudo para sair, entramos em mais uma rota em que a navegação seria intuitiva. Literalmente precisaríamos encontrar marcas de pneus no sal e seguir atentamente verificando se estávamos indo em direção ao Vulcão Tunupa, que se destacava no horizonte, com 5.432 m e que fica no extremo norte do Salar do Uyuni.

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Começamos seguindo uma marcação que nos levou em direção à duas pequenas ilhas próximas, mas chegando lá deu para perceber que não era o caminho certo, pois ele foi ficando com o solo instável e aparentemente terminaria nelas. Nesse ponto resolvi fazer uma escolha ousada e entrar na parte do Salar sem marca alguma, seguindo navegando livre por uma parte seca e de aparência firme, na esperança de cruzar com novas marcações mais a frente.

Assim andamos por algumas dezenas de quilômetros. Foi lindo, com o sol a pino do meio dia o salar virou um tapete branco maravilhoso. Não vimos ninguém em nenhum momento. Eram nós 3 em um dos locais mais inóspitos do mundo! Eu a Má e a Gabi na barriga!

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Salar de Coipasa

Seguimos dirigindo e o Salar começou a mudar de textura, ficando mais rugoso, com pelotas de sal aflorando… De repente, ainda bem, cruzamos com uma marca de pneu e começamos a segui-la. Tínhamos achado a rota correta na hora certa, pois estávamos nos aproximando da borda do Salar que é sempre aonde acontecem os atolamentos. Alguns quilômetros a frente, achamos o inicio do aterro que normalmente existe para criar uma saída segura. Passamos por ele sem dificuldade e saímos do Salar de Coipasa!

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Local de saída do Salar de Coipasa com segurança

Agora o próximo desafio era chegar no Salar do Uyuni e entrar nele pelo local certo. O plano era ir na direção da vila de Tahua e de lá entrar sentido Isla Incahuasi – que seria nosso local de pernoite – localizada no centro do Salar do Uyuni. Passamos por várias minúsculas vilas e estâncias, como Tauca, Três Cruces, VilQue, Chorcaza, Chiarcollo e Tamancaza, tendo que abrir algumas porteiras para prosseguir. Esse caminho também foi rota do Rally Dakar que aconteceu na Bolívia em 2015, passamos por uma placa empoeirada e bem desagastada que dava boas vindas aos participantes.

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Após chegar na vila Peña Blanca pegamos uma estrada que seguia pelo perímetro do Salar. Ela ia variando entre trechos de desvios pelo sal e trechos pela via principal. Conforme íamos avançando tateando para tentar achar o caminho certo, a estrada foi ficando cada vez mais estreita e eu comecei a achar que seria melhor entrar no Salar o quanto antes. Me parecia mais seguro do que ficar ali o tempo todo na borda, que é a zona de risco, sem ter ideia do tipo de terreno que vinha pela frente. O ponto era em qual lugar arriscaríamos entrar, pois não existiam aqueles aterros que criam uma passarela até a parte firme.

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Avançamos mais um pouco e vimos um desvio na estrada que levava em direção a ponta de uma pequena península que parecia que entraria no Salar. Seguimos nesse caminho, mas logo depois de virar a ponta percebi que a entrada não seria muito segura e voltamos. Tive que voltar de ré um bom trecho de tão estreita que era a estradinha. Continuamos pelo caminho anterior e logo depois vimos um carro atolado exatamente no trecho que teríamos que passar caso eu tivesse entrado no Salar por lá. E eram bolivianos que com certeza conheciam bem o lugar.

Cruzamos uma pequena vila, a Estancia Chiltaico durante alguma festa, tinha até banda tipo de fanfarra tocando. Passamos com o carro, literalmente no meio da festa, e claro que parecíamos um OVNI. Todo mundo olhando. Mais a frente depois de passar por uma área de solo bem mole, que na verdade era uma pequena hacienda – que aproveita o solo mais fértil da borda do salar para plantar – chegamos em um tipo de bifurcação. A estrada “principal” seguia pela esquerda em um estreito zig-zag colado na parede da encosta, e a direita existia uma entrada para o Salar, que estava bem marcada e com o solo seco e seguro. Pensamos: É agora!

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Entramos no Salar do Uyuni e fomos seguindo a marca de pneu. Logo a marcação foi fazendo uma curva para virar a ponta da montanha, e o solo começou a ficar molhado, formando duas canaletas para as rodas. Após a curva, vimos alguns montes de sal, uma lagos verde esmerada escavada no solo e 2 tratores parados. Esse caminho, na verdade era para chegar em um local de extração de sal! Olhei para a Má e disse – Temos que dar meia volta, torça ai para não atolar! – Sem deixar perder tração no carro, tirei as rodas dos trilhos, entrei no sal mole e fiz uma curva bem aberta para conseguir voltar pelo mesmo caminho! E ainda bem que deu tudo certo. Voltamos para a estrada e essa vez escolhemos o caminho da esquerda, serpenteando a borda da montanha com o Salar.

Dirigimos mais alguns poucos quilómetros e passamos por outro desvio bem parecido com o ultimo. Minha intuição dizia que agora era a entrar certa para o Salar. Resolvemos arriscar novamente e entramos na estrada de sal em direção a Tahua. O solo estava firme, e sentimos que estava seguro para rodar por ali. Passamos por algumas salinas e começamos a ver no fundo de uma Bahia a vila de Tahua.

Nessa vila eu sabia que iniciava uma rota segura pelo Salar, direto até a Ilha Incahuasi, então o plano desde o inicio era chegar lá e a partir desse local entrar no Salar. Mas como o caminho até ela acabou nos jogando dentro do Salar, falei para a Má que o ideal seria a gente procurar as marcas de pneus dessa rota que deveria estar passando próxima de nós ao invés de ir até essa vila para voltar provavelmente pelo mesmo caminho. Ela topou claro, aliás topa tudo sempre!

Então a estratégia foi seguir na perpendicular do suposto caminho, para assim cruzar com ele. E deu certo! Logo depois cruzamos com uma marcação bem escura de borracha no piso branco de sal que era inconfundível. Com certeza aquela era a rota principal! Entramos nela à direita e no horizonte já era possível ver a Isla Incahuasi.

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Isla Incahuasi ao fundo

Dai para frente foi uma maravilha. A tensão tinha ficado para trás e ficamos só curtindo. É muito divertido dirigir nessa imensidão branca. Paramos algumas vezes para tirar fotos e começamos a ver vários carros 4×4 de excursões. Não estávamos mais tão isolados assim. Daqui para frente, não seria mais um caminho totalmente novo para mim, pois estive outras 2 vezes ali de carro, e isso me deixou bem mais tranquilo.

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Chegamos em Incahuasi, mortos de fome! Encostamos o carro próximo de umas mesas feitas de sal e escolhemos esse local para ser nosso acampamento. Quando eu abri a caçamba para pegar as tralhas para prepararmos o nosso almoço, tudo estava branco e na hora eu comentei com a Marcela – Nossa Má acho que entrou sal na caçamba, venha ver! Quando olhamos de perto, percebemos que na verdade tinha estourado um saco de farinha! kkkkkkkk Caramba foi um trampo limpar tudo!

Almoçamos um macarrão com atum e fomos explorar a ilha. O visual do topo dela é maravilhoso e o pôr do sol foi um espetáculo a parte.

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Quinto trecho: Isla Incahuasi para Laguna Hedionda

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Link do minha marcação no Wikiloc para seguir: Isla Incahuasi to Laguna Hedionda

  • Data 16/09/2018
  • Distancia: 202 km
  • Duração: em movimento 4hs, com paradas 5h30
  • Altitude: máxima 4.215m e Mínima 3.620m

Atrativos de destaque desse trecho da Travessia do Altiplano Boliviano:

  • Dirigi no Salar do Uyuni e sair dele!
  • Plantações de quinua
  • Paisagem do Salar Del Carmen
  • Visual do Vulcão Ollague de 5.868 metros de altura
  • Lagunas: Cañapa, Hedionda
  • Flamingos e vicunhas

Daqui para frente, é uma rota mais conhecida, muitas pessoas já fizeram e inclusive eu tenho outros posts sobre o restante desse caminho. Mas todas as vezes que passei por essa rota acabei pegando caminhos diferentes e tive experiências novas.

Leia também: DE CARRO PARA O SALAR DO UYUNI E ATACAMA EM 11 DIAS

Acordamos cedo, fizemos o ritual de tomar o café da manhã e desmontar acampamento e saímos. Seguimos pela rota principal do Salar, navegando pelo GPS e pelas marcas dos pneus. Alguns quilômetros depois a Marcela assumiu o volante para viver um pouco a experiência surreal que é pilotar nessa imensidão de sal. A ideia seria eu assumir o carro novamente próximo da borda, pois eu tenho mais experiência caso a situação ficasse complicada, mas quando nos demos conta o solo já estava bem mole e grudento e não dava mais para parar para fazer a troca! Se tentássemos isso tínhamos o risco grande de atolar. A Má teria que seguir pilotando e nos tirar de lá com segurança!

Conforme nos aproximávamos da estrada elevada, as condições foram piorando até que virou um “lamaçal” de agua e sal! Foi tenso e divertido ao mesmo tempo! Uma gritaria, tipo: Acelera, vira, direita, esquerda, não pára, não deixa o carro perder tração! enquanto isso o carro, deslizando de lado e girando, até que a Má, com muito louvor, conseguiu subir no acesso do caminho aterrado que leva para fora do Salar do Uyuni! Foi um baita batismo de pilotagem em salar!

OBS: Atenção no momento de sair do Salar. Existe um lugar exato para sair de uma forma tranquila e segura. Nos saímos por um local mais difícil, deveríamos ter seguido bem reto na “estrada” do salar que teria sido mais fácil. Se você for seguir a minha marcação no wickiloc fique atento a isso. Se você prestara atenção no desenho do mapa irá ver que é mais lógico seguir reto nos últimos quilômetros.

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Saímos do Salar do Uyuni por Tani Vito, próximo de Chuvica. Agora tem uma cancela logo na saída do Salar e é cobrada uma taxa de turismo para passar. De lá fomos até a Vila de Colcha K e compramos algumas frutas com uma senhora na rua e umas comidas na mercearia da cidade. A vila estava sendo preparada para uma festa e estava um clima de alegria, foi legal passar por lá. A próxima parada foi em San Juan, que em teoria é a “maior” vila do caminho. Eu queira comprar mais um galão de diesel para garantir e resolvemos tentar lá.

A vila é bem pequena, empoeirada e vive praticamente em função das plantações de quinua. Durante o dia ela fica vazia, pois todas as pessoas ficam nos campos. Perguntando para uma das poucas pessoas que vimos, nos achamos a mercearia que vendia combustível, mas chegando lá ela só tinha gasolina. Aproveitamos para comprar um vinho Boliviano para o jantar e seguimos viagem! kkkk

Logo depois de San Juan, pegamos uma saída a esquerda da estrada principal. A partir desse local não tem mais nenhuma vila até chegar em San Pedro do Atacama. Dirigimos um longo trecho com o Salar Del Carmen a nossa esquerda, acompanhando por quase todo o tempo um trem de cargas carregando de sal, um pouco distante de nós á, seguindo em direção ao Chile. O caminho nos fez, pegar um tipo de atalho que cruzava o meio do salar e o trilho do trem e que nos levou a uma estrada de terra boa e larga, que na verdade estava em construção. Andamos por ela por alguns quilómetros com o Vulcão Ollague de 5.868 metros de altura a nossa direita. A paisagem formada pelas rochas alaranjadas do campo de lava e ele ao fundo era bem bonita.

O próximo trecho foi seguir em direção a sequencia de Lagoas do Altiplano. A primeira foi a Laguna Cañapa. Muito linda e cheia de flamingos. Inclusive esse é um local que eu tinha colocado como possibilidade de pernoite acampado caso chegássemos tarde. A próxima foi a Laguna Hedionda, que bizarramente possuiu um hotel bom, mas que nas duas vezes que passei nele não tinha nenhum hospede. De qualquer forma é uma opção de pernoite caso você queira algo mais confortável. Nós almoçamos lá um sanduíche, feito meio no improviso, pois pelo que percebemos, apesar de ter um restaurante lá, como nunca aparece ninguém, as pessoas não estavam preparadas para fazer nada alem disso.

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Chegando na Laguna Cañapa

Foi bem gostoso, comemos sentados em um quiosque fora, olhando para a lagoa e seguimos viagem.

6° trecho da Travessia: Laguna Hedionda para Laguna Colorada

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Link do minha marcação no Wikiloc para seguir: Laguna Hedionda to Laguna Colorada

  • Data 16/09/2018
  • Distancia: 86 km
  • Duração: em movimento 2h20, com paradas 3h30
  • Altitude: máxima 4.550m e Mínima 3.908m

Atrativos de destaque desse trecho da Travessia do Altiplano Boliviano:

  • Laguna Honda
  • Laguna Colorada ao por do sol
  • Sensação de estar dirigindo no Planeta Marte
  • Arbol de Piedra
  • Fauna (Flamingos, Vicunhas, raposas)

Chegando na laguna Honda, vimos um “zorro”, que é uma raposinha dos Andes! Ele estava andando bem próximo do carro, e deu para imaginar a dificuldade que deveria ser para conseguir comida e água naquela região tão árida. Dai para frente o caminho foi maravilhoso, areia e pedra sem fim. Parecia que estávamos dirigindo em Marte. Em um certo trecho resolvi pegar um desvio diferente e passamos por um estreito cânion, que era o leito de um pequeno riacho. Fomos avançando pelo veio de água, meio apreensivos sobre o que vinha pela frente e acabamos voltando para a rota principal alguns quilómetros depois. Isso acontece muito nessa região, você passa por inúmeros desvios e acessos e a vontade que dá é de explorar todos eles! Um dia farei isso!

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O próximo ponto de parada foi um local conhecido como “Arbol de Piedra”. São formações rochosas no deserto esculpidas pelos ventos, muito lindas.

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Já perto do horário do pôr do sol fomos nos aproximando da entrada da Reserva de Fauna Andina Eduardo Avaroa, que fica na Laguna Colorada. Existe um pequeno posto de controle, com uma cancela e alguns materiais informativos. Pagamos uma taxa de 180 bolivianos por pessoa (não aceita dólares), fizemos nos registro e entramos na Reserva.

Perguntamos aonde poderíamos acampar por lá, e depois de contato um pouco sobre a nossa expedição, falar da Marcela grávida, o guarda falou que a gente poderia parar o carro ao lado dos alojamentos deles e armar a barrara de teto. Ele falou de uma forma como se estivesse sendo bem legal com a gente, então não ficou muito claro para mim, se era permitido ou não acampar próximo da Laguna. Depois desses tramites resolvidos fomos até um mirante para tentar ver o visual da lagoa com o sol se pondo. O angulo desse lado, com o sol ao fundo, dá uma coloração totalmente diferente ao lago, um vermelho escuro, parecendo um grade lago de vinho!

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Descemos até a margem da lagoa e caminhamos um pouco para conseguir outros ângulos daquele espetáculo. O frio e o vento começou a apertar bem e resolvemos que já seria a hora de voltar para montar acampamento ainda de dia. O carro estava parado no topo do mirante, que era um pequeno morro de uns 50 metros apenas, mas como estávamos à 4.280 metros de altitude, fui subindo em zig-zag tranquilamente sem forçar muito. E foi ai que eu olhei para a Má e ela estava subindo, literalmente em linha reta, morro acima, e correndo!

Eu gritei dizendo – Não, Má! sobe devagar e em zig-zag! A altitude vai te fazer mal e grávida, ainda mais!

Mas, quando vi ela já tinha chegado la encima. Eu acelerei o passo para alcança la, pois sabia que iria dar merda. Instantaneamente ela ficou extremamente ofegante, sem ar e com muito dificuldade para respirar. Fiquei super preocupado, corri para o carro e peguei um cilindro de oxigênio que tínhamos para situações de emergencia (pode ser comprado em farmácia mesmo no Perú e Bolívia) e ela ficou alguns minutos dentro do carro respirando até que deu uma acalmada… Bom, nada como aprender vivenciando na prática a relação esforço fisico x altitude.

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Depois desse maravilhoso espetáculo e da Marcela quase ter tido um desmaio, voltamos para o local aonde nós iriamos montar acampamento. Chegando lá percebemos que tinha um pequeno hostal, bem simples, mas que nos daria uma cama e quatro paredes. Considerando o susto somado ao cansaço era uma opção ideal. Lá ja estava um grupo de uns 6 turistas de uma excursão que vinha do Uyuni, com um brasileiro inclusive. O grupo me lembrou uma viagem que fiz 15 anos atras por esse trecho exatamente assim, contratando esse tipo de excursão 4×4.

Estávamos tão cansados que nem interagimos muito e fomos dormir.

7° trecho: Laguna Colorada para San Pedro do Atacama

mapa

Link do minha marcação no Wikiloc para seguir: Laguna Colorada to San Pedro do Atacama

  • Data 17/09/2018
  • Distancia: 158 km
  • Duração: em movimento 3hs, com paradas 5h20
  • Altitude: máxima 4.898m e Mínima 2.580m

Atrativos de destaque desse trecho da Travessia do Altiplano Boliviano:

  • Deserto Salvador Dali
  • Geiseres Sol da Mañana
  • Termas de Polques, Laguna Chalviri
  • Laguna Verde
  • Vulcão Licancabur
  • Downhill mountain bike

Acordamos relativamente cedo, tomamos o clássico chá de coca servido pelos bolivianos no café da manha e seguimos viagem. Primeiro fomos até um outro mirante no meio da Laguna Colorada, para ver sua impressionante coloração de mais um angulo e com outra luz. É impressionate como as cores ficam completamente diferentes. Agora a lagoa ganhou um tom alaranjado, com o reflexo das montanhas ao fundo e o verde das algas e da pequena vegetação rasteira da borda.

Laguna Colorada
Laguna Colorada

Outro espetáculo dessa lagoa, é ficar admirando os milhares de flamingos que ficam desfilando pelo lugar.

Flamingos da Laguna Colorada

Seguimos a estrada e começamos a subir bastante, indo a quase 5.000 metros de altitude. Passamos por muitos trechos com neve, que restavam ainda do inverno. Em alguns pedaços era preciso desviar, improvisando o caminho, pois os “penitentes” – formação de gelo típica das montanhas Andinas – fechavam completamente a passagem. Muita lama e veios de água derretida também cruzavam a estrada. As condições das estradas no Altiplano variam muito ano a pós ano e é difícil prever como vai estar. Pelo que me disseram esse inverno que precedeu nossa viagem foi um bem nevado, por isso que pegamos tanto neve ainda em meados de setembro.

Gelo na estrada
Gelo na estrada

Passamos pelo desvio que levaria aos Geiseres Sol da Mañana, mas resolvemos não entrar. Eu já havia visitado eles em outra viagem e achamos melhor seguir, mas para quem não conhece vale a pena a parada. Um pouco mais a frente avistamos a Laguna Chalviri, lá existem alguns pontos para banhos termais, como as Termas de Polques. O visual é lindo e apesar de ser uma parada famosa e normalmente com bastante turistas, é legal parar por alguns minutos, nem que seja para esticar as pernas e tirar fotos.

Laguna Chalviri
Laguna Chalviri

Logo depois vem uma grande região de areia batida rodeada de montanhas, e com algumas rochas espalhadas de forma aleatórias, conhecida como Deserto Salvador Dali, cujo o nome compara o lugar aos desertos surrealistas das obras do artista catalão. Esse é um dos pontos altos da rota e é maravilhoso para fotografar.

Deserto Salvador Dali
Deserto Salvador Dali
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Passando o deserto, começamos a nos aproximar da fronteira com o Chile, Lá fica o último ponto de parada, a Laguna Verde, que está bem aos pés do Vulcão Licancabur com seus 5.920 metros de altura. Depois de tirar várias fotos, seguimos mais um pouco e chegamos na saída da Reserva da Fauna Andina Eduardo Avaroa. Como essa entrada é muito mais usada do que a entrada pela Laguna Colorada, já que ela serve para que está no Atacama e faz esse tour para a Bolívia, ela é bem mais estruturada.

Fiquei surpreendido positivamente com a melhorar geral nas instalações e capacitação das pessoas. Evoluiu muito comparado com a ultima vez que passei por lá no final de 2016 (leia meu relato clicando aqui). Tanto que eu tinha achado que lá era a aduana, mas na verdade, alguns metros a frente construíram um pequeno galpão e lá fizeram a nossa baixa na aduana. Seguindo mais uns poucos quilómetros, chegamos em Hito Cajon, o “escritório” boliviano para carimbar os passaportes para a saída.

Esse lugar continua igualzinho, parece até que mantiveram assim por causa do turismo mesmo, para preservar o lado “roots” e peculiar da Bolívia. É uma casinha feita de adobe, minúscula no meio do nada, com uma bandeira ateada e um guarda boliviano solitário com um carimbo na mão.

Vulcão Licancabur e a Laguna Verde
Vulcão Licancabur e a Laguna Verde
Vulcão Licancabur e a Laguna Verde

Saímos da Bolívia e logo chegamos na aduana Chilena. Antigamente a aduana, para quem vinha da Bolívia, era na cidade de San Pedro mesmo, agora você já faz os tramites exatamente na fronteira, ficou mais fácil, mas muito mais severo. Viraram o carro de ponta cabeça praticamente, tivemos que jogar fora todo o resto de comida que tínhamos, abrir todas as malas, caixas e etc. Levamos 1 hora lá, mas deu tudo certo e seguimos para San Pedro do Atacama.

Entramos no asfalto após 3 dias de terra e a sensação foi uma mistura de se sentir seguro e perto da civilização com querer dar meia volta, entrar na Bolívia e viver novamente toda intensidade e autenticidade que aquele pais oferece.

Descemos os 40 kms e 1000 metros de desnível até San Pedro (existe uma trilha que acompanha a estrada e é um down-hill animal de mountainbike) e lá terminamos essa maravilhosa Travessia do Altiplano Boliviano!

Foi uma super aventura, muito intensa emocionalmente para mim. O trecho mais casca-grossa de toda a viagem de 4 meses pela América do Sul e fazendo isso com a esposa grávida de quase 6 meses e sozinhos. Fiquei 100% do tempo mais apreensivo e atento com os contra-tempos possíveis. Cada decisão de qual caminho tomar, aonde dormir, aonde ir era muito mais seria. Até as pequenas coisas, como uma simples parada para foto, eu nunca desligava o carro, para não existir a possibilidade de quem sabe ele não ligar mais.

A Má nunca tinha estado em regiões tão altas e a comida e a água na Bolívia podem dar problemas intestinais pesados. Então eu fiquei muito conectado com tudo, com cada detalhezinho do que vivemos. Chegar em San Pedro e tudo ter corrido maravilhosamente bem, foi a mesma sensação que tive após escalar o Aconcágua e voltar para o acampamento base com segurança.

Fiquei mais apaixonado ainda pela minha esposa e pela minha família que estava se formando com a chegada da nossa filha!!!

6 meses depois, acampando na Pedra da Macela, Eu, Má e Gabi com 40 dias!
6 meses depois, acampando na Pedra da Macela, Eu, Má e Gabi com 40 dias!

Combustível

  • Nem todos os postos da Bolívia aceitam cartão de crédito. E também não aceitam dólares.
  • Na Bolívia, o valor do combustível para estrangeiros é até 8x mais caro. E isso é uma lei, não é malandragem. Mas é possível negociar um pouco em alguns casos.
  • Não existe diesel S10. Existe apenas 1 tipo de diesel. Conversando com os frentistas eles me disseram que o diesel boliviano vem do Chile. Ele não é tão puro como o S10 mas também não é ruim como o diesel comum nosso.
  • É possível as vezes achar pequenos mercadinhos, ou pessoas que vendem galões de combustível nos vilarejos. Caso você precise, pergunte para alguém, que eles irão indicar quem é a pessoa que tem. De qualquer forma diesel é mais difícil achar.
  • Vilas que eu achei alguém vendendo: Sabaya (uma senhora em um mercadinho de esquina muito simples) e San Juan (mas nessa vila só tinha gasolina)

Comida e água

Recomendo ter seu fogareiro, kit de panelas e comidas suficiente para pelo menos 4 dias de travessia. Você até consegue comer pelo caminho, como: nas vilas de Sajama, Colcha K, San Juan e Sabaya, em Isla Incahuasi, na Laguna Hedionda, mas não espere “restaurantes”, é sempre algo simples e improvisado. Em Sajama por exemplo comemos uma carne de Lhama com batatas, que tinha pelos ainda e a pele do animal, recém abatido, estava na porta do suposto restaurante, cheia de sangue tomando sol.

Água também você deve ter com você. Não conte com a possibilidade de comprar pelo caminho. Levei uns 50 litros para beber, cozinhar e escovar os dentes.

Navegação na Travessia do Altiplano Boliviano

  • Primeiro faça download de tudo em casa, para não ficar dependendo da internet dos hotéis.
  • Como eu disse anteriormente o google maps não cobre essa região e não marca as estradas e caminhos, mas baixar o mapa na visão de satélite ajuda bastante a entender o terreno e perceber pela foto quais são os caminhos melhores.
  • Recomendo usar o app Wikiloc. Baixe e siga o meu perfil, tenho o marcação lá desse roteiro separado por trechos.

Segurança

Sugiro levar um localizador via satélite SPOT. O meu sonho seria um telefone via satélite, mas esse que achamos no Brasil dessa mesma marca não pega nessa região. Já o localizador funciona bem e vai marcando em tempo real a sua localização. Você gera um link que as pessoas podem ir acompanhando, alem te ter um botão de pedido de resgate e um que manda mensagens pré-programadas. Como: “Chegamos e estamos bem”.

Sobre segurança relativa a assaltos, violência e coisas do tipo, em nenhum momento nos sentimos inseguros. Nos sentimos muito mais seguros do que viajar pelo Brasil.

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Uma resposta para “Travessia do Altiplano Boliviano, a mais incrível aventura off-road da América do Sul”

  1. Avatar de Marcela Barros
    Marcela Barros

    Já quero voltar !

Autor

Fernando Barros

Pai, pós graduando em Inteligência parental, e praticante de diversas atividades outdoor como: montanhismo, canoagem oceânica, MTB, mergulho e surf. Fez mais de 180 trilhas com suas filhas pequenas, nas quais muitas elas foram as crianças mais novas a fazerem. Produtor de conteúdo sobre vida outdoor, com blog, canal no Youtube e fundador da agência Cria Outdoor, primeira especializada em montanhismo com crianças.

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