De carro para o Salar do Uyuni e Atacama em 11 dias 

by Fernando Barros
Mapa Ir de carro para o Salar do Uyuni e Atacama

2016 foi um ano difícil… economia do país péssima, e tudo mais o que nos já sabemos. Para mim, e talvez para muitas pessoas, um ano complexo de programar qualquer coisa com muita antecedência. Frente esse cenário, cá estava eu, no dia 22/12 com a tarefa de planejar no último segundo o que fazer nos 11 dias que teria livre nesse final de ano. Passagens aéreas complicadas e o raciocínio “lógico” vem a cabeça: Voo não vai rolar, então a viagem vai ser de carro… Mas quero uma aventura, então algum lugar para ligar o 4×4, natureza… Aí na mente vem o óbvio!! Ir de carro para o Salar do Uyuni e Atacama!

Mas são 11 dias apenas, para +- 7.000 km, dá?! Vai dar!

Eu já estive na Bolívia 4 vezes, sendo 3 vezes no Salar de Uyuni. Na primeira vez fiz o roteiro tradicional saindo de San Pedro do Atacama até o Salar e voltando, com uma agência de turismo local, pois o meu carro não era 4×4. Sem dúvida um dos lugares mais lindos que já estive! Esse passeio foi parte de outra viagem de carro de 28 dias que fiz por essa região, em que percorri 9.500km!

Essa vez, queria ir com o meu próprio carro para o Uyuni, percorrer novamente essa parte da Bolívia e passar por estradas no Atacama que só um 4×4 passaria!

Com esse plano em mente começamos o desafio de organizar tudo em 3 dias! O roteiro foi basicamente o seguinte:

Mapa Ir de carro para o Salar do Uyuni e Atacama
Total: 7000km e 91hs de pilotagem estimada.

Para saber todos os detalhes dos preparativos, o que levar, documentação, equipamentos e etc, leia o post:

TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER PARA IR DE CARRO PARA O SALAR DO UYUNI E ATAMACA

Diário de bordo da viagem dee carro para o Salar do Uyuni e Atacama em 11 dias:

1° dia 25/12 – São Paulo – Foz do Iguaçu (1.070 km, 12hs)

Foz do Iguaçu

​Um dia longo de deslocamento. Chegamos com um lindo por do sol às 21:00. Essa viagem foi tranquila, tirando o momento em que uma revoada de pássaros cruzou a estrada e um deles espatifou no vidro do carro! Fora o susto e pássaro suicida que morreu.. não foi nada sério.

2° dia – 26/12 Foz do Iguaçu – Pampa del Infierno (11hs)

Começamos o dia entrando no Parque para visitar as Cataratas às 9:00 (horário de abertura) e às 10:00 pegar estrada rumo ao Chaco. O plano foi tentar ir um pouco mais para frente de Saenz Peña e dormir em Pampa del Infierno. Esse nome vem dos colonizadores que ao chegarem nessa região, extremamente quente e com pouca água, disseram: “esto és un Infierno” e ficou assim batizado.

Atravessar a fronteira foi tranquilo, muito mais rápido do que eu esperava. O policial argentino ficou mais interessado em saber sobre os componentes da bike, e suas funções do que a caçamba entupida de tralhas!

Logo no começo descobrimos que a gasolina argentina era 2 vezes mais cara que no Brasil e que muitos postos não aceitavam cartão. Isso bagunçou um pouco a logística da quantidade de “efectivos” que tínhamos levado.

O primeior trecho percorrido foi a região das Missiones, local frequentado por Che Guevara na infância.

No almoço, a tradicional parrilla, em um restaurante na beira da estrada. As estradas são bem planas e estão muito melhores hoje em dia e, diferente de 15 anos atrás, a polícia também tem sido mais tranquila, não fui parado nenhuma vez!

Chacho Argentino

A gente tinha uma meta de tentar chegar ainda de dia em Pampa del Infierno, mas acabamos perdendo muito tempo tentando sacar dinheiro, comprar panela (tinha esquecido de levar uma que desse para 3 pessoas!) e abastecer o carro em postos que aceitassem cartão, acabamos estendendo a viagem e pegando uma tempestade de raios impressionante durante o início da noite. Paramos para tentar fotografar os raios!

Pampa del Infierno é uma cidade que parece de filmes de terror, principalmente se você chegar de noite e no meio da tempestade. Tudo escuro, tudo meio caindo aos pedaços e, pra melhorar, tinha um parque de diversões em frente ao hotel parecendo abandonado.

3° dia 27/12 – Pampa del Infierno – Purmamarca (680km, 7hs)

Purmamarca
Purmamarca

Purmamarca era um dos pontos especiais da viagem, então eu estava bem empolgado de chegar. E também significava estar na cordilheira dos Andes e assim ter cumprido uma etapa difícil do percurso que era cruzar o Chaco. A partir de agora a paisagem e o clima iriam mudar drásticamente. Chegamos às 14:30 mortos de fome e resolvemos, ao invés de ir procurar algum restaurante, fazer comida no hotel mesmo, ou melhor, no quarto do hotel. Pegamos o fogareiro, a caixa de mantimentos, e a tal da panela comprada no Makro de Corrientes e levamos tudo para o quarto. Assim nasceu um macarrão com almôndegas top!

Devidamente alimentados fomos explorar o local. Purmamarca é um vilarejo lindo e famoso pelas montanhas coloridas que ficam no seu entorno. É parada obrigatória! Existe uma caminhada de 3km que contorna as montanhas. Vale a pena fazer.
Terminamos a caminhada na praça central, brindando a nossa chegada na Cordilheira dos Andes, com uma cerveja artesanal de Juy Juy. (Bem ruim por sinal rsss, mas valeu conhecer)
Próxima parada agora é a cidade de Uyuni!   Vamos cruzar a fronteira por Lá Quiaca, passando por Tilcara e Huamauaca!

Purmamarca

Dicas

Quem quiser se hospedar em um lugar um pouco melhor e ter opção de jantar e beber uma cerveja, recomendo se hospedar em Presidente Roque Saenz Peña. Se quiser avançar mais na viagem e se aventurar em lugares com uma cama e um banho frio, aí é Pampa del Infierno.

Purmamarca, como eu disse, deve estar no seu roteiro. Dormir lá é bem mais bacana do que Salta! Se vc vai para o Atacama pelo Paso Jama, irá passar por lá de qualquer jeito. Então encaixe essa parada na programação.

4º dia 28/12 – Purmamarca – La Quiaca – Uyuni (600 km, 11hs)

Quebrada Huamanaca


Caramba esse foi um dia único. Com certeza a situação “off road” mais extrema que já passei. Vamos lá…

Acordamos em Purmamarca às 6:30 e depois de todos os afazeres matutinos de rotina como: banho, lavar panela do jantar (ficou para o dia seguinte mesmo), arrumar a caçamba do carro (encaixar tudo milimetricamente) e café da manhã, acabamos saindo às 9:00.

O plano esse dia era atravessar a fronteira para a Bolívia, pela cidade de La Quiaca e de lá seguir para a cidade de Uyuni.

Parada para almoço

O primeiro trecho até fronteira, foi bem tranquilo. Estradas ótimas, montanhas coloridas na paisagem, mas infelizmente não tínhamos muito tempo para explorar em detalhe a região, pois era muito importante conseguir chegar de dia em Uyuni (eu sabia que a estrada na Bolívia que levava até essa cidade por essa rota era pouco usada, então dirigir à noite nem pensar) e não tínhamos idea de como seriam os trâmites na fronteira.

Chegamos em La Quiaca, abastecemos o carro, saquei dinheiro e borá atravessar. Uma zona! Filas enormes, vários trâmites, mas no final das contas os procedimentos na imigração boliviana foram mais fáceis do que na Argentina. Documentos em mãos, andamos 50 metros e entramos na Bolívia. O guarda da fronteira verificou tudo e me chamou para ir no escritório, ih… já sabia que iria pedir propina. Quando eu entrei no mocó ele me disse – Está tudo certo, mas para entrar aqui tem que dar uma “contribuição”. Dei 100 pesos argentinos e seguimos viagem.

Uns 50km a frente entramos em uma estrada de terra sentido Uyuni. Seriam 208km. Não conhecia ninguém que tinha passado por essa estrada e também não achei muitas informações na internet sobre ela, mas sabia que era preciso um carro 4×4 e que o tempo estimado no Google maps era de 6:30h.

A paisagem era linda, canyons, vales, desfiladeiros e o caminho seguia serpenteando os Andes. Chegamos até 4100 metros de altitude.

Estrada de Tupiza

Em muitos trechos haviam desvios pois a estrada estava em construção (PS: Ela ficou pronta em 2018). Em um certo momento os desvios nos levaram para um leito de rio quase seco, um vale lindo. Cruzamos com um carro e eu resolvi perguntar se era por aqui mesmo o caminho para o Uyuni. Ele disse que sim, era só seguir o leito e as placas. Ok continuamos, passamos embaixo de uma ponte (isso mesmo uma ponte para cruzar o rio, que nos estávamos) e resovi entrar em uma pequena vila para perguntar novamente. Era isso mesmo! Só seguir pelo leito do rio “seco”!

Beleza, seguimos. Logo em seguida vimos uma placa grande sinalizando a direção e de novo o rio. É isso aí toca para frente.

Derrepente começamos e ver água chegando e alagando o leito seco. Pensei: “Pqp, choveu na cabeceira do rio e ele começou a encher!”

Olhei para ver se existia algum lugar para sair e nada. Bom, vamos seguir mais um pouco nessa água que logo na frente deve ter um desvio, mas conforme eu avançava pior ficava e mais água vinha. Precisei ligar o 4×4 reduzido para passar em alguns trechos e por pouco não passou. Até que chegou em um ponto que resolvi voltar. Estava bem séria a situação. Consegui manobrar o carro no rio e dar a volta.

Passamos novamente por trechos que quase atolei,  mas essa era a última chance. Começamos a voltar… adrenalina lá encima e eu avistei uma ambulância 4×4 parada um pouco mais à frente depois do pior trecho. Ufa alguém!! Conseguimos chegar nela sem atolar e perguntei se isso era normal, se era assim mesmo. Ele disse: “sim, é só esperar a água baixar e ir”. O que acontecia era que chovia em algum lugar que trazia a água, mas como no Altiplânico as chuvas são raras e rápidas, realmente em algum momento abaixaria.

Perguntei se eu poderia segui-lo, e ele disse sim, mas nesse instante começou a chegar uma outra ambulância que simplesmente passou por nós e seguiu pelo rio sem hesitar! Nessa o motorista da primeira ambulância me diz: “entra no carro e segue ele que eu vou logo atrás!”.

Caramba! Entrei no carro, e fui! (Detalhe ele não seguiu atrás! Deu meia volta e foi embora.) Agora tem alguém que conhece e que pode ajudar a puxar o carro caso precise! Pela terceira vez repetindo o trajeto! Fomos seguindo e desacreditando no que estava acontecendo, nem conseguimos pensar em tirar foto ou filmar, só queríamos sair de lá. Adrenalina à mil e o trecho de 4×4 mais tenso que eu já fiz! Não achava que o carro poderia passar, quase atolamos (eu e a ambulância várias vezes) mas passamos. É difícil descrever o que foi, estar no meio de um rio enchendo com o carro, foi foda!!!

Estrada de Tupiza pata Uyuni
A tal do “rio- estrada”

Chegamos em Uyuni às 21:00, já no escuro, mas felizes por ter chegado!! Podre de cansado tomei um banho gelado, fizemos novamente um macarrão com o fogareiro no quarto e desmaiei.

Confesso que passei a noite lembrando daquele momento… e imaginando como seria o dia de amanhã… Teria mais 2 dias de trilhas pela região mais isolada da Bolívia e amanhã iria cruzar o Salar do Uyuni fazendo a minha própria navegação! Impossível dormir!

Informações atualizadas 

Em setembro de 2018 estive novamente na Bolívia de carro e agora a estrada que vai de La Quiaca para Uyuni, passando por Tupiza, está praticamente toda asfaltada. Bem mais tranquila para atravessar.

5º dia – 29/12 (320km – 10hs) Salar do Uyuni – Laguna Hedionda

Salar do uyuni

Hoje era o dia de cruzar o Salar do Uyuni e seguir em direção até a Reserva de la fauna Andina Eduardo Avaroa. Eu já estive nessa região em uma excursão de 4 dias há muitos anos atrás, e desde essa época imaginei um dia voltar para explorar sozinho esse trajeto. Me lembro também o quão complicado era a navegação pelas estradas super precárias e principalmente pelo Salar.

Apesar de já ter visitado essa região não  sabia na verdade o que vinha pela frente, os próximos 2 dias eram cheios de incertezas e todo o planejamento era estimado. Estimei que conseguiria navegar pelo Salar e pelas trilhas seguintes sem guia, usando apenas uma marcação de GPS. Que eu conseguiria principalmente sair do Salar pelo local correto sem atolar (as extremidades são o local aonde normalmente o piso tende a romper). E que os dois galões de 20 litros cada mais o tanque cheio iria dar conta  kilometragem que estaria por vir.

Todas essas incertezas me deixavam bem ansioso, mas ao mesmo tempo, não saber o que estava por vir era exatamente o que me empolgava.

Acordamos cedinho. E fomos para Colchani, aonde começa o Salar. Coloquei no celular a marcação de uma rota que baixei pelo app wickloc e entramos naquela imensidão branca. O primeiro objetivo era chegar na Isla Incahuasi.

Existem marcas de pneus que ajudam a navegar, mas elas aparecem para todas as direções então realmente um GPS é mandatorio!

Alguns kilometros antes eu resolvi ter a experiência de pedalar no Salar e ir até a ilha de bike. 3500 metros de altitude, claridade extrema e a secura do ar prejudicam bastante, mas foi bem divertida a sensação.

Chegar em Incahuasi foi tranquilo. De seguimos para o sul para sair do Salar, nesse trecho já não tinham muitas marcas de pneus e fomos confiando na trilha do gps. Conforme fomos chegando perto da borda do Salar, fui ficando mais tenso pois sabia que não poderia passar em qualquer lugar e comecei a não confiar muito na direção que o GPS nos mandava. Essa marcação que eu estava seguindo era de alguém que fez esse trajeto e registrou em um GPS, só que a cada momento, as condições mudam e o local que poderia ser bom para passar naquela época pode não ser bom hoje.

Olhávamos no horizonte e a impressão que dava era de que existia uma área alagada pela frente, mas nunca nos aproximávamos! Miragem, sensação muito loca! Bom, já tinha a certeza que não daria para sair do Salar com segurança sem saber exatamente por onde passar, precisava seguir algum carro que sabia o caminho.

piscinas de Sal. De carro para o Salar do Uyuni e Atacama

Resolvi mudar de direção e ir até umas manchas pretas no horizonte que eu imagina ser um carro. Chegamos lá e eram pilhas de pedras de sal. Andamos  mais uns kilometros e vimos outra mancha, essa vez tinha que ser um carro. Acelerei bem para chegar nele, e era realmente um carro de excursão. Comecei a segui-lo e conseguimos sair do Salar e pegar a estrada que precisávamos. Existia um trecho certo para subir na estrada e toda a região envolta desse lugar era de uma camada fina de sal com água embaixo. Passar ali seria ficar atolado certeza e dependendo do local alguns dias até encontrar alguém para ajudar.

ir de carro para o Salar do Uyuni e atacama

Depois do Salar começamos a passar por caminhos sem marcação (não da para chamar de estrada alguns trechos, pois você simplesmente pode passar por onde quiser, da para ver marcas de pneus em vários lugares, e você dirigir por onde quiser), cruzamos outros salares menores, trilhas pedregosas, vales, montanhas sinuosas e planícies desérticas que devem ser o mais próximo da paisagem de Marte que podemos ter aqui.

A navegação sempre muito tensa, seguindo a marcação do GPS e referências na paisagem de mapas que tínhamos. Me preocupava também com o combustível. Eu completei o tanque em Uyuni, tinha mais 2 galões de 20 litros e deveria chegar em San Pedro com isso! Tinha uma autonomia estimada de 700km, sem considerar que com 4×4 ligado e altitude o consumo aumenta bem. A princípio não iríamos rodar mais do 500km, mas como tudo nessa viagem, isso também não era uma certeza.

O lugar que iríamos dormir também era uma incógnita. Não sabia até onde conseguiríamos avançar. Meu plano era que a partir das 17h o primeiro lugar que me parecesse bom para montar a barraca e protegido do ventos eu iria parar.

Às 17:00 chegamos na laguna Canãpa. Linda, cheia de Flamingos! Paramos por 15 minutos para tirar fotos e reparei que existia uma pequena ruína de uma casa que serviria perfeitamente para montar o acampamento protegido do vento. Disse para as meninas que aqui era o lugar, mas decidimos seguir até a próxima lagoa e avançar mais um pouco para o dia seguinte ser mais curto.

E assim chegamos na Laguna Hedionda! E por incrível que pareça tinha um hotel lá! Inacreditável, no meio do nada, sem nenhum hóspede. Todo para nós. Encerramos esse dia da forma mais inesperada, com uma cama e um banho quente e o pôr do sol mais lindo que já vi! Aquelas supresas que a vida nos proporciona só quando nos colocamos totalmente no escuro.

6º dia 30/12 – Da Laguna Hedionda (Bolívia) para San Pedro de Atacama (Chile)

Lagunda Hedionda. De carro para o Salar do Uyuni e Atacama
Amanhecer na Laguna Hedionda

Acordamos com o nascer do sol na Laguna Hedionda, depois de uma noite tranquila. Ah, tirando uma gritaria de madrugada, que deveria ser alguma briga ou “brincadeira de luta” entre os meninos que trabalhavam no hotel, que por um momento fez a gente se sentir no filme “O iluminado” sozinhos em um hotel no meio do nada com um zelador psicopata kkkk

O objetivo desse dia era chegar no Paso Hito Cajon, a fronteira com o Chile localizada na Laguna Verde, para depois seguir mais uns 25km até San Pedro do Atacama.

Logo após tomar o café, enchi um pouco mais o tanque de combustível com os 2 galões de 20 litros que tinha, arrumei a caçamba e saímos. Eu estimava uns 200km e umas 6hs pela frente.

A trajeto estava bem ruim, muita pedra, areião e as chatas “costelas” que fazem trepidar tudo! Parece que vai desmontar o carro. Inclusive em uma dessas “quicadas” a minha bike soltou do rack! Pqp.

Passamos pela: Laguna Honda, Laguna Colorada, Arbol de Piedra, Geisers de la mañana, Deserto de Dali e Laguna Verde. E em todos esses lugares magicamente incríveis, estávamos completamente sozinhos.

Chegamos na fronteira às 14:30, dentro do tempo planejado que era estar no máximo até às 17:00, pois nos disseram que fechava esse horário.

Parei o carro e apresentei toda a documentação necessária para saída, principalmente o documento de registro de entrada do veículo no país. Sem isso vc sai, mas o carro fica.

Mas tive uma surpresa! O guarda de fronteira me diz que o local para registrar a saída do carro era somente em um posto de controle à 80km de distância ! Que eu deveria passar lá antes! 160km ida e volta naquelas condições, nós iríamos levar de 5 a 6 horas! Nossa, todo mundo ficou branco com essa notícia, iria ferrar com toda a nossa programação, sem falar que não tinha combustível para isso. Suplicamos para o guarda e ele então sugeriu que a gente pagasse a passagem de ônibus para ele ir até lá levar depois! Pqp é mole?! Kkkk

Nesse mesmo momento um peruano e um espanhol que tinham acabado de escalar o Vulcão Licancabur* me pediram carona para voltar à San Pedro.

*Esse Vulcão é uma das opções na região para quem gosta de montanhismo. Ele tem 5916 metros de altura.

No meio da confusão para saber o valor da “passagem” (100 pesos disse o guarda), falar que eu daria sim a carona e pensar como faria isso, considerando a quantidade de tralhas que tínhamos. O peruano sacou uma nota de 50, deu para o guarda e ficou por isso mesmo. O guarda aceitou ir de classe econômica pelo jeito!

Com a saída da Bolívia liberada, colocamos tudo que estava dentro do carro na caçamba (formando uma pequena montanha amarrada com cordas), ajeitamos todos e seguimos para o Chile!! Após aproximadamente 5 km entramos na estrada de asfalto! A partir disso

Depois de 3 dias inteiros dirigindo em tudo que é tipo de terreno como: terra, pedra, sal, lama, areia e até dentro de um rio! Estar no asfalto e próximo da “civilização” me dava um sentimento de alívio e segurança, mas também um certo aperto no coração por estar saindo dessa região tão linda.

7º dia 31/12 – San Pedro de Atacama

Depois de uma média de 10hs por dia dirigindo desde de São Paulo. Acordamos no sétimo dia em San Pedro de Atacama sem pressa e com o plano de visitar apenas lugares próximos. Esse era um dia para rodar pouco e relaxar. Tomamos café tranquilos e fomos nas Termas de Puritama. Um riacho de água termal, que corre dentro de um canyon à 3500 metros de altitude, perfeito para essa manhã mais zen. Foi bem legal, mas não conseguimos ficar mais que 40 minutos lá, no final das contas era difícil abaixar o nosso ritmo! 

Almoçamos e seguimos (eu de bike) para o Valle de la Luna, um local lindo próximo de San Pedro e que normalmente as pessoas vão para ver o pôr do sol.

Nos passamos tantos dias sem ver praticamente ninguém, que qualquer grupo de turista reunidos me fazia se sentir em um estádio de futebol. Visitamos a Caverna del Sal e o tempo que fiquei em fila indiana com todos que estavam lá para conhecer o local logo me fez perceber eu queria ver o pôr do sol em um lugar que só estivéssemos nós.

Vale da Lua. De carro para o Salar do Uyuni e Atacama
Vale da Lua

Saímos de lá e eu fui dirigindo até a cordilheira de Sal (bike na caçamba) e na parte mais alta, saí da estrada, liguei o 4×4 e fui me enfiando montanha a dentro. Conseguimos parar em um ponto exatamente na parte de cima do Valle del Marte (um canyon bem lindo também que as pessoas chamam erroneamente de Valle de la Muerte). Perfeito, só a gente, a vista dos vulcões de um lado o pôr do sol de outro e o canyon embaixo. Abrimos uma garrafa de prosecco e brindamos a virada do ano na cordilheira de sal, para não dar nenhum espaço para “uruca” em 2017! kkkkk

De carro para o Salar do Uyuni e Atacama. Cordilheira de Sal
Por do Sol da Cordilheira de Sal

Voltamos para o hotel, tomamos um banho rápido e fomos jantar. Achamos um restaurante simples, que servia uma ceia com um menu fechado, comemos tranquilos e voltamos para o hotel, que era um pouco mais na periferia da cidade.

Deitamos em um banco e passamos a virada do ano olhando o céu estrelado do Atacama. E assim fechou 2016 para nós!

8º dia 01/01 – San Pedro do Atacama para San Antonio de los Cobres (Argentina)

Paso Sico

Esse era o dia de começar a voltar. E o trajeto que escolhi essa vez, diferente do que a maioria das pessoas fazem, que é usar o Paso Jama (inclusive eu, na primeira viagem de carro que fiz para o Atacama, mas naquela época a estrada era de terra ainda), foi voltar do Atacama pelo Paso Sico, que era praticamente todo de terra. Seriam +- 350 km em umas 6h30, sem contar o tempo das paradas. Queria conhecer um local diferente e seguir na mesma vibe da aventura que foi a Bolívia. E se esse era o objeto, eu realmente acertei… vocês vão perceber mais para frente.

A primeira parada que fizemos foi nas Lagunas Miscanti e Miniques. São lindas e foi a terceira vez que visitei essas lagoas. Não me canso de ir nesse lugar, são umas das minhas preferidas no Atacama.

A partir dessse techo, tudo seria novidade para mim, não saber que paisagem iria aparecer a cada curva me empolgava muito!

Andamos por algumas horas, em uma paisagem incrível e de repente vemos uma pick-up parada na estrada. Eu parei para ver se eles precisavam de ajuda.

Era um carro com 4 turistas Italianos e um motorista indo para Salta. Tinha furado um pneu e dos dois estepes que ele tinha, um estava travado no suporte e não soltava e o outro estava vazando. Fiquei um tempão ajudando, emprestei minha bomba para encher o pneu, tentei soltar o estepe quebrando a corrente com um machado que eu tinha, até que eles conseguiram chamar ajuda em San Pedro, através de um telefone via Satélite (sinal de celular esquece durante muitossss kilometros).

Seguimos viagem. A estrada ficava cada vez mais linda e realmente esse caminho era mais impressionante que o Paso Jama. Passamos por várias lagoas e Salares maravilhosos! E poucos kilometros antes de chegar na fronteira, começamos a escutar um barulho estranho… tinha furado um pneu, pqp. Comecei a me preparar para trocar, deitei embaixo do carro e escuto um barulho de carro se aproximando, eram os italianos com um carro de apoio!! Kkkk Quando me dei conta tinham umas 4 pessoas já me ajudando! Como foi bom essa ajuda, trocamos o pneu 10 vezes mais rápido do que eu faria sozinho. Fluxo de energia positivo gerado no momento que decidi parar para ajuda los, horas atrás!!

A gente tinha mais 200km de terra pela frente, sendo que todos diziam que só piorava. A tensão agora era seguir até lá sem estepe e conseguir chegar de dia, pois dirigir à noite ali nem pensar! Eu deveria ter levado outro! Sabia que era importante e arrisquei. Cagada! Mas agora não tinha o que fazer, tinha que seguir. Decidimos ir os dois carros juntos até onde dava, para assim, um ajudar o outro caso fosse preciso.

Seguimos juntos até a fronteira e eles se enrroscaram na documentação e nos seguimos tivemos que seguir. Percorremos mais 150km sozinhos e chegamos em San Antonio de los Cobres ao anoitecer.

9º dia 02/01 – San Antonio de los Cobres para Saenz Penã (Chaco)

Acordamos bem cedo, e antes de tentar achar uma “gomeira” (borracharia), pois tudo abria às 10:00, fomos conhecer o Viaduto la Polvorilla, localizado à 4.200 metros de atitude. É uma estrutura metálica da década de 50 aonde passa o Trem de las Nubens, que hoje em dia é uma ferrovia turística, que sai de Salta até Los Cobres, mas no século passado era a forma de levar os minérios até o porto de Antofagasta na costa chilena.

Tiramos algumas fotos e começamos a voltar para Los Cobres, quando comecei a escutar um barulho estranho. Parei, desci do carro, olhei tudo e não percebi nada… Continuamos descendo a estrada sinuosa de terra, beirando abismos, quando o barulho aumentou. Parei novamente e essa vez vi que estava faltando um parafuso na roda, e quando me dei conta percebi que todos estavam totalmente soltos! Ou seja, acho que mais uma curva a roda iria se soltar completamente! E perder uma roda naquela estrada poderia ser bem sério.

Arrumei a roda e voltamos para Los Cobres, mas chegando lá não consegui nenhum borracheiro e seguimos mesmo assim. A estrada de 160km até Salta era linda também e diferente do nos disseram na fronteira tinha uma boa parte asfaltada. Chegando lá consegui comprar um “neumatico” usado em uma borracharia na periferia e seguimos mais o dia todo até Saenz Penha. Esse foi um dia longo. Saímos de uma altitude de 4200 metros nos Andes e fomos para 300 metros no Chaco, mas no final deu tudo certo!

E ainda descobrimos que no dia seguinte, iríamos cruzar com o Rally Dakar! Exatamente no nosso caminho! Muita Sorte!

10º dia 03/01 – Saenz Penha para Cascavel.

Saímos pela manhã na expectativa de ver o Rally Dakar! E ele passou extamente na estrada que estávamos indo!

Esse dia tentamos esticar ao máximo e dirigimos 12hs direto até Cascavel.

11° dia 04/01 – Cascavel para São Paulo

Esse foi um dia apenas de deslocamento. Chegamos em São Paulo às 19:30 depois de 12hs de viagem

Depois de rodar 7.130km em 11 dias, sendo que disto +- 1.500 km foi terra, finalizamos a viagem.

Essa viagem foi a minha terceira vez para essa região, (atualmente estive mais uma vez, veja no post: TRAVESSIA DO ALTIPLANO BOLIVIANO, A MAIS INCRÍVEL AVENTURA OFF-ROAD DA AMÉRICA DO SUL), apesar de já ter visitado dezenas de países, esse é sem dúvida é um dos locais mais lindos que já estive, principalmente o trecho da Bolívia. É uma imensidão sem fim, ainda pouco explorada e muito isolada. Percorrer essa região, lhe dá um pouco a sensação de estar chegando em um outro planeta.

Acessar e vivenciar tudo isso, realmente não é fácil, ir de carro para o Salar do Uyuni e Atacama é uma viagem “bruta”, mas quem tiver disposição, com certeza terá uma experiência para nunca mais sair da memória.

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9 comments

fabio gomes de barros 3 de fevereiro de 2018 - 16:41

Ola, adorei seu post. Vou em abril, Atacama e uyuni vou fazer seu roteiro de 11 dias em 16. Vou de savana 3. Gostararia de fazer paso jama e paso sico também no mesmo roteiro. Teria um roteiro para me mandar. Da uma olhada no insta @fabiosantisata. Muito obrigado pela atenção

Fernando Barros 14 de fevereiro de 2018 - 19:03

Oi Fabio, valeu! Te segui lá no insta. O meu é @fernando_barros.
Se vc for fazer o roteiro que fiz, entrando na Bolívia por Juliaca e entrando depois no Chile não tem como incluir Paso Jama e Sico. Tem que ser um ou outro. Conheço os dois e se tiver que escolher iria pelo Sico sem duvida. Mais aventura, mais inóspito. Já que vc vai ter 5 dias a mais que eu, vc pode ficar mais dias em San Pedro e explorar mais por lá. Ir no Salar de Tara, Lascar, Machuca, El Tatio. Um outro lugar também que incrível e que eu fui na outra vez é seguir até Putre e lagoa Chungara. Pega a estrada do Pacífico passando por Iquique e Arica. Em 5 dias da para ir e voltar. No caminho tem varios petroglyphs (gigante do Atacama é um deles).

Evandro 24 de julho de 2018 - 21:03

O melhor relato que li sobre a travessia em veiculo proprio do parque Nacional Eduardo Avaroa. Obrigado pela riqueza de detalhes, me ajudou muito na montagem do meu roteiro que farei em breve.

Fernando Barros 30 de agosto de 2018 - 07:54

Que legal Evandro! Fico feliz de saber isso! Estou agora no Peru de carro e daqui 2 dias entro na Bolívia novamente. Vou ficar 5 meses na estrada com a minha esposa. Se precisar de algo avise. Abs! Siga a gente no insta: @blogdaaventura

Rodrigo 5 de dezembro de 2018 - 12:10

Fernando, parabéns pelo blog! Sigo seu insta e também é bem legal. Vou pro Atacama com minha mulher e um cachorro. A ideia é ficar uma semana lá. Pretendemos passar em Purmamarca também antes de entrar no Atacama. Sei que você não viajou com cachorro, mas estou com dificuldade de achar infos sobre o assunto. Tenho dúvidas se animais podem entrar nos salares, vale da luna, lagunas do Atacama. Outra dúvida: também pretendo levar minha MTB e a ideia é pedalar nos arredores de san pedro e também nos pontos turísticos (salar de Tara, lagunas, etc). Sabe se há restrições?

Um abraço,
Rodrigo (@insta_visconti)

Fernando Barros 5 de dezembro de 2018 - 19:27

Oi Rodrigo, aqui é a Marcela, esposa do Fernando! Vou responder a parte do cachorro já que também tenho um cãopanheiro e fiquei bem atenta a esse assunto na viagem para quando organizarmos uma próxima.
Sobre levá-lo nas atrações: a maioria delas não permite entrar com cachorros (Vale da Lua e Lagunas Escondidas, por exemplo), mas a paisagem da estrada e do Atacama em geral, é maravilhosa, com muitos espaços abertos para você curtir o visual do carro e também solta-lo para aproveitarem juntos.
Fizemos amizade com um casal de colombianos que está postando pelo link @overlanderscolombia no Instagram e eles estão com o Boston, um Pastor Alemão, em uma viagem de carro de 1 ano. Eles já passaram pelo Atacama e outros lugares, e podem te dar dicas de como foi, inclusive sobre como é deixar o cachorro no camping (ou aonde você tiver hospedado) nos momentos em que quiser ir nas atrações turísticas e ele não puder acompanhar. Ah! Também é legal você perguntar sobre como proteger a pata dele nos salares porque o Sal pode machucar o coxim e também se informar sobre os trâmites de fronteira com a documentação do seu cão! Boa viagem, aproveitem muito!
Agora o Fernando vai te responder sobre a Mountainbike: Eu levei a MTB para lá em umas das viagens que fiz de carro. Vale bem a pena, Você pode sim pedalar praticamente em todos os lugares. Inclusive um rolê incrível é fazer um downhill pela estrada de terra que acompanha a estrada principal de descida da parte alta do Altiplano até São Pedro do Atacama. São 40km de descida! Vindo do Passo Jama, assim que vc cruzar o acesso para a Bolívia existe uma trilha de MTBdo lado esquerdo!

Eduardo Soares 23 de dezembro de 2018 - 02:19

Meu amigo, parabéns pela aventura ! ! !
Certamente, irá inspirar muitas pessoas. Eu estarei indo de moto com mais dois amigos agora dia 26/12/18 e pretendemos retornar no dia 11/01/19. São Paulo, campo Grande, Corumbá, Santa Cruz de La Sierra, Sucre, Uyuni, Parque Eduardo Avaroa, San Pedro do Atacama, Salta, Presidencia Roque Sáenz Peña, Foz do Iguaçu, São Paulo. Um total de 17 dias ! Gostaria de saber mais dos preços das atrações, não vejo muito relatos a respeito.

Forte Abraço
Eduardo

Fernando Barros 25 de dezembro de 2018 - 11:56

Oi Eduardo, tudo bem?! Que demais essa sua viagem! Eu acabei de voltar de lá. Fiz novamente essa viagem, só que agora cruzando a Bolívia desde o o parque Sajama, passando também pelo Salar de Coipasa. Vou escrever um post sobre isso.. Então sobre os preços. No Salar vc paga apenas para visitar a Isla Incahuasi (30 bolivianos) caso queira subir até o mirante. Na laguna Hedionda (30 b) E no parque Eduardo Avaroa ao entrar na área do parque, que no sentido que irá fazer é na Laguna Colorada. Não lembro bem ao certo o valor (acho que uns 150b), mas no geral na Bolívia é tudo bem barato , que não vale nem considerar no orçamento da viagem. O que precisa ficar esperto é de ter dinheiro em pesos bolivianos em mãos. Já no Chile os preços são mais salgados. Mas vc estando de moto e não precisando de agências economiza bem. Para entrar nas lagunas escondidas por exemplo 10.000 pesos.

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