Tudo que você precisa saber sobre a Travessia da Serra Fina

by Fernando Barros
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A Travessia da Serra Fina é considerada um dos trekkings mais duros do Brasil, e as características principais que fazem ela ganhar esse título são: Altimetria acumulada X Peso que você terá que carregar.

Travessia da Serra Fina

Escalaminhada

O peso das mochilas se deve a escassez de pontos de abastecimento de água que lhe obriga a levar quase todo tempo de 4 a 5 litros, mais comida e equipamentos de camping para 4 dias (já que não existem abrigos de montanha). Somado a isso, você andará por um sobe e desce de +- 3.000 metros de altimetria acumulada, passando por alguns dos picos que estão entre os 10 mais altos do Brasil, entre eles: a Pedra da Mina (quarto mais alto), Pico Capim Amarelo, Pico dos Três Estados (décimo) e etc. A Travessia da Serra Fina não é muito técnica, não é necessário levar cordas e tem pouquíssimos pontos de “escalaminhadas” (que são muito comuns nas montanhas da Serra da Mantiqueira) e os que existem são bem fáceis. A dificuldade “técnica” está nas longas subidas, descidas rochosas, na vegetação de bambuzal (presente em vários pontos e que atrapalha muito a passagem) e nos trechos de capim alto e fechado que dificulta a navegação.

Nesse post ou vou listar de uma forma bem objetiva e organizada todos os pontos e variáveis que você deve conhecer e considerar caso queira se aventurar na Travessia da Serra Fina.

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Distância da Travessia

Distância total que percorremos: 36,7Km

Duração da Travessia

A Travessia da Serra Fina é feita normalmente em 4 dias, mas é possível fazer em 3 se apertar bem mais o passo. Claro que tem gente que faz em até um dia, mas ai é outra coisa, são atletas de trail running. Recomendo fazer em 4 dias e curtir a experiência.

Travessia da Serra Fina

Resumo de cada dia da Travessia da Serra Fina

1° dia – 28/04/2018

  • Altimetria Acumulada 1.022m
  • Distância 7,8km
  • Tempo de duração 6h50

A trilha inicia na “Toca do Lobo” a 1.515m de altitude e o começo será uma longa subida exposta ao sol. O desafio do dia é subir o pico do Capim Amarelo (2.491m). O ideal é você acampar após passar esse pico. Dai para frente existem alguns lugares. O objetivo de todos é sempre tentar chegar até o acampamento Maracanã, que é o máximo que normalmente é possível avançar nesse dia, pois depois serão mais 1h-1h30 até o próximo local de camping.  Nós ficamos no chamado “Acampamento Avançado” uns 30 minutos antes do Maracanã, pois fomos avisados que ele já estava lotado, mas no final das contas achei o local que nós acampamos muito melhor!

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Acampamento Avançado

2° dia – 29/04/2018

  • Altimetria Acumulada 744m
  • Distância 9,2km
  • Tempo de duração 8h05

Esse é o dia de subir até a Pedra da Mina (2.788m), o ponto mais alto da Travessia para depois acampar no Vale do Ruah. É um dos dias mais lindo no qual você anda o tempo todo pela crista da Serra.

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3° dia – 30/04/2018

  • Altimetria Acumulada 312m
  • Distância 8,5km
  • Tempo de duração 7h55

A montanha desse dia é o Pico dos 3 Estados (2.656m). Normalmente as pessoas acampam no cume, mas como já estava lotado de barracas, decidimos seguir mais um pouco e procurar outro local. Por ser um feriado e ter 2 grupos grandes de agências fazendo a travessia, também não conseguimos lugar nas áreas de camping seguintes e o jeito foi improvisar um local, já que estava perto de escurecer e prosseguir procurando poderia ter o risco de termos que caminhar a noite. Acampamos em uma área meio rochosa, no topo de uma pequena colina e acabou sendo o a noite mais linda da travessia, sorte!

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4° dia – 01/05/2018

  • Altimetria Acumulada 179m
  • Distância 10,2km
  • Tempo de duração 5h04

Fim da Travessia, Local de resgate dos transfers

Fim da Travessia, Local de resgate dos transfers

Esse dia temos apenas uma montanha para subir, o Alto dos Ivos (2.515m) e depois é praticamente 1.000 metros de descida até a saída na Rodovia BR354 que está a 1.560 metros de altitude. Esse local está também super perto do Picus Hostel, é só descer a rodovia caminhando.

Dificuldade física. A Travessia da Serra Fina é mesmo tudo isso que todos falam?

Essa é uma resposta muito relativa, pois muita coisa influencia: clima, sol, temperatura, humidade da trilha, condicionamento, equipamentos adequados, a cabeça e etc, mas eu e a Marcela tivemos a mesma impressão após o término da travessia: “foi um esforço fisico forte, mas foi mais tranquilo do que imaginávamos”. Já tivemos no Brasil dias mais duros de trekking, como por exemplo o segundo dia da Travessia do Sul da Ilha bela que está descrito em outro post aqui no blog. Acho que por causa de todo o terrorismo que fazem sobre a dificuldade da Serra Fina nos já fomos esperando e também estávamos bem fisicamente e mentalmente, o fato é que foi mais fácil do que imaginávamos, mas novamente como disse tudo é relativo nesse quesito…

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Vou sozinho, com uma agencia, ou contrato apenas um guia?

Com uma agencia de turismo você estará em um grupo grande (de 8 a 20 pessoas). Aliás eu acho que o número máximo saudável para qualquer tipo de trekking são 8 pessoas. Acima disso, já causa um impacto ruim na natureza, lentidão e falta de atenção dos responsáveis pelo grupo. Contratando um pacote de uma agencia eles levarão a sua comida, barraca, irão cozinhar para você, e vão montar seu acampamento. Você não vai precisar pensar na navegação e nem na logística de água e transporte para te levar até o inicio da trilha e te buscar no final. Inclusive as agencias fazem um esquema (que eu considero antiético e uma sacanagem) de mandar um carregador bem cedo na frente e já deixar montada as barracas de seus clientes e assim “guardar lugar” nas áreas de camping. Em duas noites nos tivemos que acampar em locais alternativos por que não existiam mais locais disponíveis para as nossas barracas (apesar de ninguém ter chegado).

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Uma outra opção que fica no meio termo é contratar um guia de montanha diretamente. Ele não carregará as suas coisas, mas você terá alguém que conhece bem toda trilha, pontos de água e os macetes da travessia. Vocês irão compartilhar os afazeres do acampamento e irão viver de verdade a dinâmica de estar fazendo um trekking de vários dias.

E a terceira opção é  ir por conta própria e ser responsável por tudo. Que foi o que fizemos.

Não classifico nada que descrevi acima como tendo vantagens ou desvantagens, são apenas formatos diferentes. O importante é que você tenha clareza de que jeito considera que irá aproveitar melhor essa experiência.

Guias que recomendamos: Vinicius e Kaina (035) 991220061

Para encontrar operadoras: Dreampass Experiences

Navegação durante a Travessia da Serra Fina

Nós fomos com mais 3 amigos, e eu fui guiando usando GPS do celular com uma trilha marcada no aplicativo Wikloc. Dá para fazer a trilha tranquilamente auto-guiada usando um GPS, e até também apenas seguindo as marcações, mas existem muitos pontos que confundem e é importante que você tenha experiência e um bom senso de direção. Na pior das hipóteses você terá que voltar ou perderá um tempo procurando o caminho certo. O trecho de navegação mais difícil eu achei que foi no terceiro dia depois do Vale do Ruah cruzando o capim alto e fechado. Mas hoje em dia não tem mais porque não usar GPS, qualquer smartphone cumpre essa função!

A Travessia da Serra Fina tem infra-estrutura?

A região é uma APA (Área de preservação Ambiental) e não um parque estadual ou nacional. Não possui portaria ou qualquer tipo de infra-estrutura ou controle. A limpeza da trilha é feita pela boa vontade dos guias e aventureiros. Não existe banheiro (óbvio) e você deve fazer as suas necessidade, usar uma pá para enterrar ou levar de volta com você! Isso mesmo, na verdade esse é sempre o melhor jeito de minimizar o impacto. Uma forma de fazer isso é criar um “Shit Tube” (um tudo de PVC com tampa) e colocar dentro com a pá. Saiba como fazer um nesse link

Como chegar no local que inicio a como ser resgatado no final?

A trilha se inicia próximo da Cidade de Passa Quatro e termina perto de Itamonte MG. Uma boa logística é você dormir uma noite antes em Passa Quatro e contratar um transporte para te pegar no hotel, levar para o início da trilha e te buscar no final (na saída da rodovia no Sítio do Pierre). Caso você vá de carro, deixe ele estacionado em Itamonte, não vale a pena deixar ele na estrada de terra no inicio da trilha, pois de qualquer forma o transfer terá que te levar até ele. Da cidade de Passa Quatro até o inicio da trilha a “Toca do lobo” são uns 45 minutos. Combine com o transfer para ele te pegar às 6:30 ou 7:00 no hotel, para você começar a trilha no máximo até as 8:00. O primeiro dia é muito exposto ao sol e quanto mais cedo sair melhor.

Hospedagem que recomendamos: Hostel Serra Fina, a partir de R$50,00 o quarto compartilhado com café da manhã, mas também tem quarto para casal. O responsável é super simpático e atencioso. Na volta você pode contratar um banho individual.

Translado que recomendamos é com a Patricia da Adventure Transfer (55) 99888-9368. Saiu +-R$350,00 para 5 pessoas. Instagram @adventuretransfer

Água

É um dos assuntos que mais geram dúvidas. (Considere água para beber e cozinhar).

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Primeiro dia existem 2 pontos de água. Na “Toca do Lobo”, onde começa a trilha (lá tem um riacho), e depois mais a frente. Eu já sai do hotel com 4 ,5 litros de água pois não estava confiando no ponto de água desse dia, mas você não precisa já iniciar a caminhada com toda a água, e sim apenas o necessário para as primeiras 1h30 de subida, pois após esse tempo terá uma pequena cachoeira ao lado da trilha (ela não é visível) mas é próxima da primeira área área de camping e bem fácil de perceber. A água é super pura e em abundância. Nesse local você deve pegar água suficiente para o primeiro dia e que dure até o final do próximo dia. Nós saímos desse local com 4,5L cada um e deu certinho até o outro dia.

Segundo dia, o ponto de água é um riacho e dá até para tomar um “semi-banho” se quiser! Ele se encontra andes de começar a subir para a Pedra da Mina. Aqui você precisa pegar água para o resto desse dia, para a noite e para o dia seguinte cedo. Eu peguei 3 Litros e 0,5 para cozinhar.

IMG 8142Terceiro dia. Você estará acampando no vale do Ruah que é repleto de pontos de água. Eu recomendo, fechar acampamento e caminhar até um trecho em que o riacho forma umas pequenas cachoeiras e lá tomar o café da manha, pegar água, lavar as coisas e você. Esse é o melhor local para um banho gelado em toda a travessia! Aqui você terá que abastecer o suficiente para esse dia todo e até a metade do último dia. Nos pegamos 4,5 L cada novamente.

Quarto dia. Existe um ponto de água ha umas 2 hs antes do final da travessia. Nós não precisamos parar para abastecer pois ainda tínhamos o suficiente

Obs: Leve pastilhas para purificar a água, ou algum outro método. A água é pura, mas é sempre bom garantir.

Quais são os equipamentos essenciais para a Travessia da Serra Fina?

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  • Se prepare para o frio. Roupas como: luvas, gorros, Anorak, um fleece grosso ou jaqueta de pluma e Sleeping bag para temperatura conforto zero grau. Nós pegamos sensação térmica de -5 no Vale do Ruah, que por sinal é o local mais frio de toda a travessia.
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    Vale do Ruah, tudo congelado

  • Use botas boas e não tênis, mesmo que seja tênis de trekking. Tem muitas pedras e com a bota, além de te proteger melhor de torções, protege também seu tornozelo de batida nas pedras.
  • Roupas para o dia: Use sempre desses tecidos tipo dryfit que são respiráveis, pois o algodão fica encharcado com o suor e demora para secar e vai molhar a sua jaqueta ou blusa de frio. Algodão só uso para a noite no camping por ser mais confortável. Sempre tenho uma. Boné e ou um lenço para  segurar o suor proteger do sol e frio sem esquentar muito.
  • Bastão de caminhada, é um item que muitas vezes é subestimado mais fará toda a diferença na Serra Fina. Vai te  economizar até 30% do cansaço nas pernas. Acredite, ficará bem menos cansado. Use o par! e não apenas 1.
  • Lanterna de cabeça. Para usar no acampamento e principalmente como segurança caso seja preciso caminhar a noite. Por isso é bem melhor ter uma de cabeça do que lanternas de mãos comuns
  • Itens básico de camping como: Barraca, isolante térmico, fogareiro, panelas, fósforo ou isqueiro, papel higiênico
  • Higiene pessoal: Papel higiênico, toalha seca-rápido, escova de dentes, pasta e sabonete e shampoo caso queira se lavar. Mas leve de preferência os que são naturais e biodegradáveis. Existe até pasta de dente assim.
  • Sacos para levar seu lixo de volta, roupas sujas e etc.
  • Navegação e segurança: GPS, celular e ou mapa plastificado, apito, cobertor de emergência, canivete multi uso.
  • Óculos de sol. Vai te proteger também de galhos no olho.

VEJA O VÍDEO SOBRE ESSA NOSSA AVENTURA E SIGA NOSSA PÁGINA NO YOU TUBE!

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5 comments

Filipi 5 de novembro de 2018 - 21:02

Muito legal a descrição da travessia, sucinta e completa, mas não achei uma informação que me interessa, quem voces contrataram para levá-los até a Toca do Lobo e posteriormente resgatá-los na BR354?

Reply
Fernando Barros 6 de novembro de 2018 - 11:06

Oi Filipi tudo bem? Usamos a Pati, da Adventure Transfer, o Instagram dela para contato: @adventuretransfer

Reply
Fernando Barros 6 de novembro de 2018 - 11:14

Mas no post tem também o celular dela se preferir

Reply
Andre 27 de junho de 2019 - 16:42

Fala Fernando!!
Belo post!! Ajudou bastante!! Sou habituado a realizar trilhas e travessias e concordo plenamente contigo nisso…
“agencias fazem um esquema (que eu considero antiético e uma sacanagem) de mandar um carregador bem cedo na frente e já deixar montada as barracas de seus clientes e assim “guardar lugar” nas áreas de camping…”
Triste! Enfim…

Obrigado pelo relato,
Boas trilhas!!
André.

Reply
Fernando Barros 28 de junho de 2019 - 07:55

Valeu André! É isso mesmo! Puta sacanagem

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