Você já parou pra pensar o que acontece no cérebro dos seus filhos quando eles chegam num lugar desses? Eu fico observando isso desde que a mais nova nasceu, e reparo uma diferença enorme entre a energia das minhas filhas depois de um dia de trilha e depois de um dia de tela. E não é achismo, não. Tem nome, tem explicação, e uma vez que você entende isso não consegue mais deixar passar despercebido: é a famosa dopamina.
A dopamina é o hormônio da recompensa. O problema é que a gente trata “recompensa” como se fosse tudo igual, e não é. Telas, luzes piscando, vitrine de loja, notificação de celular: tudo isso entrega picos de dopamina artificiais e rápidos demais. O cérebro aprende rapidinho que recompensa vem fácil, na hora, sem esforço nenhum. E aí, adivinha o que acontece com tudo que exige um pouco mais de suor? Vira chato. Vira difícil. Não compensa, demora muito e exige muito.
A natureza entrega dopamina de um jeito completamente diferente. A criança que caminhou horas (ou passou horas sentada em uma mochila Kid Carrier), que sentiu frio, calor, o vento no rosto, que caiu e levantou, que teve que esperar… quando essa criança finalmente chega num lugar assim e vê a paisagem se abrir na frente dela, o cérebro registra aquilo de um jeito completamente diferente. Gradual. Real. Conquistado. Dopamina saudável vem exatamente disso: de atividades em que a criança faz esforço, espera, e só depois colhe o resultado. Não tem comparação com o pico de dopamina de um desenho animado no tablet.
E olha que interessante: muitos adultos não enxergam chegar num lugar de beleza natural como recompensa de um esforço. Reclamam da subida, do suposto “perrengue” ou do desconforto do corpo cansado. Bom, provavelmente eles não foram estimulados a isso quando crianças. Ter a resiliência de percorrer todo o caminho e chegar num lugar maravilhoso é uma recompensa real. Só que ninguém “nasce” sabendo sentir isso, se ensina. E é isso que, com o tempo, forma um adulto capaz de sentir satisfação numa vista bonita e nas pequenas sutilezas do caminho, não só no próximo estímulo rápido. Eu já escrevi por aqui sobre o desconforto que fortalece, e isso conversa direto com essa história da dopamina: não é sobre gostar que a criança sofra, é sobre entender que esforço, espera e desconforto pequeno fazem parte de como o cérebro dela aprende a sentir satisfação de verdade.
Não existe um botão mágico pra desligar telas pra sempre (nem é essa a ideia). Mas o cérebro das crianças precisa ser educado a receber a dosagem natural e saudável de dopamina, na medida certa, e isso é treino, é repetição, é levar mesmo quando dá preguiça de arrumar a mochila. Cada trilha, cada dia de sol batendo na cara, cada espera por uma vista, é uma dose desse treino.
Vocês percebem essa diferença de energia em casa também depois de um dia ao ar livre? Conta aqui nos comentários.